Artigo Publicado na Revista Financial Officer II
O poder de compra de grandes varejistas sobre os fornecedores de produtos, força-os a reduzir custos e a encolher suas margens constantemente
Marcelo do Amaral Leite, da CONSAT
“Há clientes que nos deixaram e, tão logo perceberam
que haviam perdido valor, retornaram a nossa carteira”.
A terceira fonte de pressão competitiva vem de novas práticas de gestão e operação da cadeia de valor. A esta se incorporam a pressão regulatória, que exige constantes investimentos e aumento de custos para que as empresas ajam em conformidade com leis ambientais, de segurança, de proteção à sociedade, etc., e também a força da Internet como balcão- de-compra-e-venda, que torna transparente o mercado e facilita a comparação instantânea de preços.
Alexandre Benício, CFO da
empresa CARL ZEISS:
“vejo que algumas pessoas já
não compram os importados
baratos duvidosos, e elas estão se
conscientizando de que preço mais
alto é sinônimo de qualidade
Capturando oportunidades na cadeia de valor. O desenvolvimento constante da prática de parcerias resulta em transferência de atividades internas, consideradas pouco competitivas, para especialistas. A primeira onda de outsourcing ancorou seus esforços nas grandes possibilidades de redução de custos propiciados pela delegação de determinadas atividades e processos a terceiros - a maioria, provenientes de cortes nos gastos com mão-de-obra. Nestes casos, muitas companhias conseguiram reduzir custos, em decorrência das atividades objeto de outsourcing, em até 50%. Estudos subseqüentes demonstraram que a maioria das empresas que adotaram essa prática falhou em gerar valor ou, até mesmo, destruiu valor, quando a transferência das atividades teve como objetivo meramente replicar os processos que eram feitos internamente, de forma mais barata.
Num lance mais amplo das práticas de gestão de cadeia de valor, as empresas passam a transferir atividades para serem executadas offshoring, aproveitando vantagens competitivas de nações em quesitos como educação, custo-benefício de mão-de-obra, carga tributária e infra-estrutura logística. É a próxima onda de outsourcing e offshoring que promove a quebra os antigo paradigmas. Transfere o foco da decisão para o valor que pode ser capturado via ganhos de tecnologia, inovação, qualidade e produtividade, a partir da integração com parceiros na cadeia de valor, fazendo com que o redesenho de processos se torne parte integrante da Estratégia de Negócios.
Nesse estágio, a complexidade do processo de determinação de preços avança para patamares de riscos sem precedentes e as escolhas podem resultar em geração ou destruição de valor. A estratégia precisa ser concebida para capturar valor em todas as atividades da cadeia de valor upstream e downstream. E deve refletir os compromissos de entrega de valor agregado em nível de cada transação efetivada, internamente ou com o envolvimento de parceiros. Para tanto o modelo de Pricing Intelligence deve buscar a integração em três vertentes analíticas: preços em nível de indústria, concorrência e transação. Em nível de indústria, sob uma perspectiva mais ampla, os planejadores de preços devem procurar compreender como se integram os fatores produção, logística interna e externa, supply chain e distribuição, e como o seu comportamento impacta a precificação final. As empresas avançadas no uso de ferramentas de Enterprise Risk Management alcançam maior sucesso na determinação das suas margens de lucro e administram com mais segurança as pressões sobre seus preços.
Em nível de concorrência e estratégia de produto/mercado, a missão dos gestores de preços é medir a relatividade de seus produtos e serviços face ao que oferecem seus competidores diretos e indiretos. O que é feito através da pesquisa para entender como o cliente percebe o valor agregado, principalmente quais atributos, tangíveis e intangíveis, ele valoriza na hora de tomar a decisão de compra. As empresas familiarizadas com ferramentas de Business Intelligence normalmente encontram facilidade em visualizar quais situações refletem fielmente vantagens ou desvantagens competitivas ofertadas por seus produtos e serviços.
Em nível de transação, o arsenal dos gestores deve incorporar os conhecimentos desenvolvidos nos níveis de indústria e de concorrência para que seja possível determinar o melhor preço em cada transação – partindo do preço desejado e de um leque de possibilidades que inclui descontos, bônus, prazos de pagamento, serviços pós-venda e outros atrativos que poderiam incentivar o fechamento da transação. As empresas que possuem competência interna desenvolvida em Business Analytics decidem com mais segurança e qualidade na hora de determinar os preços em nível de transação. Isto ocorre por que seus executivos já estão habituados a trabalhar investigativamente, apoiados em sistemas de informações e treinados no trabalho intensivo em equipe. Com isso, através da compreensão antecipada de todos os processos e expectativas dos parceiros envolvidos na transação – onshore e offshore - constroem vantagens competitivas em preço.
A soma desses fatores conspira para a diluição do poder das empresas de, isoladamente, estabelecer e ditar preços ao mercado. E desloca o eixo de atenção do estrategistas financeiros, operacionais e comerciais para múltiplas direções ao mesmo tempo, em busca de novas vantagens competitivas. Essa busca de novas fontes de vantagem competitiva estará atrelada à capacidade da empresa em identificar e saber transformar em oportunidades, todas aquelas pressões originárias do ambiente externo. E acima de tudo apreender a enxergar cada cliente ou segmento de clientes como único. Oferecendo produtos e serviços diferenciados, que requerem estruturas de custos e políticas de preços também diferenciados.